Fusco Lusco

domingo, dezembro 16, 2007

Se tivesse de recomeçar a vida (2)

"Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas."
Raul Brandão

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domingo, dezembro 02, 2007

De correr mundo

De correr mundo as terras e os humanos
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre.

Jorge de Sena
in Visão Perpétua
SB 3/10/1972

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quarta-feira, outubro 17, 2007

Presente distante 3


Encontro-me aqui. Contigo. Na confluência das margens dos livros que, desordenados, espelham a minha alma difusa. É a reflexão que sustenta o meu relógio de horas marcadas...são os pensamentos que se perdem, nas páginas desse livro que leio hoje e que, amanhã, possivelmente, estará perdido. Para além de outros livros ... diluido na luz de um novo dia.

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Gostaria

Este post é para a minha amiga Margarida, uma visitante assídua deste meu simples blog

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento
Boris Vian

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quarta-feira, setembro 26, 2007

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner Andresen

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quinta-feira, setembro 13, 2007

Paris at night

Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour voir tes yeux
La derniere pour voir ta bouche
Et l'obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras.

Jacques Prévert

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sábado, agosto 04, 2007

Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou a nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

Mário Cesariny

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sexta-feira, agosto 03, 2007

Duas horas da madrugada

Duas horas da madrugada . Acordo e adormeço.
Houve em mim um momento de vida entre sono e sono.

Se ninguém condecora o sol por dar à luz,
Para que condecoram quem é herói?

Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo.

Nesse momento em que acordei, dei por todo o mundo-
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora.

Alvaro de Campos

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quarta-feira, julho 18, 2007

vida

A novidade está mesmo a chegar!
É aguardada ao correr dos segundos
que se desenham no relógio do dia.

Está tudo preparado para a hora certa.
Caiada de branco está a esperança.

E uma nova vida fará parte de outras vidas.

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terça-feira, julho 17, 2007

asas

corro...
com as asas na mão.
fujo ao tempo que se associa às mágoas.

voo...
com as asas que me transformam livre
e vou ao encontro do tudo
que torna claro o meu princípio

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segunda-feira, julho 02, 2007

Recordando Sophia

O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Livro Sexto (1962)

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quarta-feira, abril 25, 2007

canto

Descerro a aurora com palavras graves,
cantando. Reinvento a melodia,
o sol aberto, o amor pelas esquinas,
a marca sensual nos ombros nus,
a memória da infância, a tua face
- e canto.
Inutilmente embora,
canto

Daniel Filipe

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